Histórias do Jogo da Bola, Ericeira

Origens e Séculos XVI a XVIII
Hoje chama-se Praça da República, mas toda a gente a conhece por Jogo da Bola. Já foi largo, hoje é praça. Já teve vários nomes — e sempre guardou o mesmo papel: ser o coração pulsante da vila, à beira-mar, entre a areia das praias e os campos de Mafra.



Esquerda para a Direita- Banco que estava na esquina, Jogo da Bola década de 1950 ou 1960
Nas suas origens, o nome Largo do Jogo da Bola nada tinha a ver com futebol. Era palco de um jogo então bastante popular, que consistia em lançar uma pesada bola de madeira (de oliveira ou pinho), com cerca de 20 a 25 cm de diâmetro, contra paulitos igualmente de madeira, dispostos sobre um quadrado de pedra em grupos de 9 ou 12. Uma espécie de cruzamento entre a petanca e o bowling, com o objetivo de derrubar o maior número de peças.
No centro do largo existia um cofre de pedra, com tampo e fecho de ferro. Os jogadores pagavam ali “o barato” — uma pequena quantia pelo aluguer do recinto. O valor arrecadado revertia para a Irmandade das Almas, ereta na Igreja de São Pedro, no largo com o mesmo nome. Por essa razão, este passatempo ficou também conhecido como Jogo das Almas.
Diz-se que até as pedras da calçada conheciam o som da bola a rolar.
Durante os séculos XVI e XVII, o jogo tornou-se tão popular que acabou por ser proibido a fidalgos, cavaleiros, mecânicos e homens de trabalho. Diziam que era um vício, um perigo, uma distração. Chegou mesmo a gerar conflitos e tragédias. Em 1656, dois condes desentenderam-se no calor de uma jogada — um deles acabou ferido de morte.
Já no século XVIII, o Jogo da Bola mantinha-se em voga em vários pontos do país: Arouca, Santa Cruz de Coimbra, Mafra, Ericeira.
De todos os recintos de jogo então existentes, apenas um chegou aos nossos dias em bom estado de conservação: o dos frades de Mafra, no Jardim do Cerco.


Jogo da Bola na década de 1940
Um casamento “real”
Corria o ano de 1585, e o largo viu-se envolvido numa cerimónia insólita…
Mateus Álvares, um falso D. Sebastião, apareceu numa pequena ermida em São Julião, a três quilómetros da vila. Montado a cavalo, entrou no Jogo da Bola para se encontrar com Ana Susana, filha de um importante lavrador. Vestida de azul-celeste, também montada, foi coroada rainha com uma coroa retirada de uma imagem da Virgem. Casaram-se ali mesmo, perante o povo.
Mais tarde, o falso rei reuniu um exército de mil homens, mas foi capturado, enforcado, decapitado e esquartejado. Muitos dos seus seguidores foram executados — alguns na temida Rua do Alto da Forca.
Século XIX
O Fim da independência da Ericeira
Ainda hoje há quem se lembre das vozes indignadas no Largo do Pelourinho…
A 24 de Outubro de 1855, a Ericeira perdeu a sua independência. Foi anexada ao concelho de Mafra, pondo fim a 626 anos de autonomia. À época, a vila mostrava maior dinamismo económico e social do que Mafra, sendo então o quarto maior porto do país, a seguir a Lisboa, Porto e Setúbal.
A decisão foi recebida com revolta pelos ericeirenses, que se reuniram no Largo do Pelourinho em forma de protesto. A partir dessa data, a toponímia das ruas passou a ser da responsabilidade da Câmara Municipal de Mafra.
Calcetada e arborizado
Com o crescimento económico da Ericeira, o Jogo da Bola ganhou nova vida. Em 1865, o cofre de pedra foi enterrado, a terra batida deu lugar à calçada, e o largo passou a ser arborizado. Novas lojas abriram e o espaço transformou-se num ponto central de comércio e lazer.
Largo Dona Amélia
Em 22 de maio de 1886, no Palácio de Belém, celebrou-se o casamento entre o príncipe D. Carlos e a princesa D. Amélia de Orleães. A cerimónia religiosa teve lugar na Igreja da Ajuda, com grande pompa, seguindo o protocolo régio. D. Amélia tornou-se Princesa Real de Portugal e, mais tarde, Rainha Consorte quando D. Carlos subiu ao trono, em 1889.
A Câmara de Mafra decidiu dar ao largo o nome oficial de Largo Dona Amélia. Mas a população resistiu — e o nome Jogo da Bola manteve-se firme no vocabulário popular.
(Foto dos azulejos do largo da bola)
Décadas de 1910 a 1930
Praça da República
Com a República, o nome oficial mudou — mas o do povo nunca mudou.
Com a implantação da República, em 1910, o largo foi rebatizado oficialmente de Praça da República. No entanto, o nome Jogo da Bola resistiu com força — e permanece, até hoje, na boca do povo, passado de geração em geração como um selo identitário.

Os primeiros autocarros (1914)
Quem ouviu o motor roncar pela primeira vez no largo nunca esqueceu.
No dia 1 de setembro de 1914, deu-se início ao serviço de duas carreiras diárias entre a Ericeira e o Lumiar, em Lisboa. Os autocarros partiam do Jogo da Bola, atravessando Mafra, Loures e outras localidades. O preço da viagem era de 700 réis e os veículos transportavam até 30 passageiros. Segundo Jaime Lobo e Silva, eram “muito cómodos”.
Durante a Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1916, o serviço foi interrompido. O trajeto passou a ser feito em camiões, num regresso forçado à dureza das estradas.
Foto: Ericeira Chegada do Camion

Memórias de António Batalha Reis
A Ericeira era um destino com alma. E os caminhos até lá também tinham histórias.
Palavras de António Batalha Reis, Bloco nº 7 , Ericeira, 1980, (manuscrito)
“Até ao estabelecimento da linha de Sintra, quando se partia de Lisboa, saía-se cedo, de trem, para ir almoçar à Malveira e aproveitava-se para dar descanso aos cavalos. Havia em que fosse de comboio até à Malveira e depois em diligência, ou de trem, ou a cavalo mas era menos usual esta forma de chegar à Ericeira.
Eu já não apanhei esse sistema “antiquado”. Nós vamos de comboio até Sintra e aí tomávamos dois trens que nos levavam à Ericeira pela estrada que ainda é utilizada mas hoje de asfalto, sem a poeira de então.
Estes trens eram do António Gaspar, o importante negociante da Ericeira, que tinha também a diligência de 'char-a-banc' Sintra - Ericeira e galeras de aluguer. Ainda o conheci muito bem e aos cocheiros sempre os mesmos, que nos serviram, até que a diligência de mulas foi substituída pela camioneta, e as cavalariças e coceiras passaram a ser garagens. A essa transformação assisti com certa saudade”


(Esquerda para a Direita, década de 1960: Sede da empresa familiar de autocarros Gaspar Irmãos, Lda; Paragem de autocarros no Jogo da Bola)
O Char-à-banc e os cocheiros
O char-à-banc (do francês “carro com bancos”) era um tipo de veículo de transporte coletivo em uso entre os séculos XIX e XX. Tratava-se de uma carruagem ou autocarro aberto, com vários bancos dispostos em fileiras paralelas. Em Portugal, os char-à-bancs desempenharam um papel importante no transporte público, sobretudo em áreas suburbanas e rurais.
Inicialmente puxados por cavalos, estes veículos viriam a ser adaptados à motorização — tornando-se precursores dos autocarros modernos. Eram frequentemente usados para transportar passageiros entre Lisboa e destinos como Sintra, Mafra e Ericeira. A sua capacidade e abertura ao exterior tornavam a viagem não só eficiente, mas também panorâmica: quem viajava podia desfrutar da paisagem com o vento no rosto.
“Era um passeio e um postal ao mesmo tempo” — diziam os mais velhos.
“Um desses cocheiros era o Pirata, sem perna de pau mas com a perna direita deformada e torta e que assim ficou depois de uma galera passar por cima dela. Tanta paciência que ele tinha para nós! Ver, em Lisboa, o Pirata sorridente, coxeando, de colete e mangas arregaçadas, que deixavam ver a camisola encarnada, sempre de barrete preto de borla, anunciar que estava ali a galera para levar as coisas para a Ericeira…
Enquanto circularam as galeras de mulas, o Pirata manteve-se na brecha … até vir a camioneta que matou a galera e, com ela, o Pirata.
Pobre Pirata que conversava com as suas mulas durante as horas intermináveis daqueles 50 quilómetros [Lisboa à Ericeira] que, a passo sonolenta mas seguro, tinham de percorrer com as nossas coisas, esse mundo de coisas que iam dar algum conforto à decoração espartana da casa de Santa Marta ou das Ribas.
Mas, retomando o caminho de Sintra: era obrigatória uma paragem a cerca de meia estrada, isto é, em Odrinhas, para descansar os cavalos. A paragem, é claro, era defronte de uma taberna, porque, euquanto os cavalos roíam a ração, os cocheiros molhavam a goela em dois copos de tinto. Para nós pequenos, aquela paragem era um eldorado, porque, nós também bebíamos um pirolito, daqueles de vidro, que era o nosso encanto: logo à saída de Sintra já vínhamos a pensar nele.
Havia duas qualidades, a que correspondiam dois preços, os brancos, mais fracos e mais baratos e os de cor, mais fortes e mais caros; eu bebia sempre um de cor, porque tinha mais gás, o que depois, me obrigava a arrotar o gás pelo nariz, delicioso.
Quando se saía de Odrinhas, só faltava meio caminho, e o andamento tomava um tom mais sostenuto. O Alto da Foz era miragem de atração, quando no topo da ladeira que nasce na ponte sobre o Lisandro, ao inflectir-se, à direita, a estrava debruçava-se sobre o mar, esse mar de que tantas saudades tínhamos e logo nos mimoseava com um forte cheiro a maresia. Depois, no alto da Sala de Visitas - um apreciável terreiro até à estrada, hoje muito reduzido por sucessivos desprendimentos de terra -, a Ericeira dava-se à nossa vista ávida, em toda a brancura das ruas, casas e telhados. Era a nossa Ericeira, em todo o seu esplendor, aninhada à beira do mar grande e azul, que se orlava de espuma branca aos seus pés, que tantos encantos nos prometia e dava”

Décadas de 1940 e 1950
Largo dos Namoricos
Diziam os antigos que o verão fazia o largo brilhar de outra forma.
Durante as décadas de 1940 e 1950, a Ericeira tornou-se refúgio de verão para muitas famílias lisboetas. O Jogo da Bola era o palco principal da vida social. Depois do jantar, os jovens passeavam em círculos — no chamado “picadeiro” — trocando olhares sob o olhar atento das mães sentadas nos bancos de pedra. O miradouro da Sala de Visitas servia de cenário aos namoricos e às primeiras juras de amor.
“No verão sempre houve um ambiente especial. Antigamente vinham muitas famílias de fora aqui passar longas temporadas — as pessoas mais modestas, pescadores e suas mulheres, chamavam-lhes ‘senhoritas’ — e eram elas que davam um ambiente especial à vila. Nessa altura, o Jogo da Bola era ponto obrigatório de reunião; as pessoas entretinham-se a dar voltas à praça — fazia-se o que todos chamavam de ‘picadeiro’ — assim como ir até à Sala de Visitas, miradouro por cima da praia do Sol, ‘cenário de amor’ para muitos pauzinhos daquela época, finais dos anos quarenta, anos cinquenta.”
— António Caiado, in “A Ericeira vista por quatro gerações”

Concertos de Música
Às quintas e domingos, a música enchia o ar.
No início do verão, construía-se uma barraca que servia de coreto improvisado. A Banda Filarmónica da vila tocava duas vezes por semana, trazendo ritmo e solenidade aos fins de tarde no largo. Famílias inteiras saíam à rua para ouvir a música, conversar e partilhar momentos — numa vila que, pouco a pouco, se modernizava sem perder o encanto.
Maria Paurita
Dizem que nesse dia até o mar parou por instantes.
Em 1932, uma tragédia abalou o coração da vila. Uma camioneta, carregada com três cascos de vinho do Bombarral, perdeu o controlo na descida e embateu contra a Casa das Cavacas, no canto do largo. No seu caminho, atropelou Maria Paurita, uma figura conhecida por vender castanhas e pevides sempre no mesmo lugar. Teve morte instantânea.
O vinho espalhou-se pela rua abaixo — chegou-se a dizer que corria até Santa Marta — e um rapaz que viajava a dormir no veículo escapou apenas com um banho alcoólico e um susto. O motorista e os outros ocupantes ficaram feridos. A vila ficou em choque. Nunca mais o lugar foi o mesmo.

Refugiados da Segunda Guerra Mundial
Naquela noite fria de janeiro, a Ericeira tornou-se porto de abrigo.
Na noite de 1 de janeiro de 1942, por volta das onze da noite, chegaram à vila as primeiras camionetas com refugiados da Segunda Guerra Mundial. Vinham de Lisboa — cerca de 70 ou 80 pessoas — entre elas franceses, romenos, polacos, italianos, belgas e holandeses. A maioria eram judeus. Havia aristocratas, bailarinos, músicos, jornalistas. Todos sob vigilância da Polícia Internacional.
Desceram no antigo terminal do Jogo da Bola. Foram acolhidos em pensões e casas particulares da vila. Por uns meses — ou anos — o largo passou a ser também o lugar de quem fugia do horror.
👉 Para saber mais, lê o artigo: A Ericeira e os refugiados da Segunda Guerra Mundial


Café Bijou Arcada
Antes era a Cervejaria Lopes. O Café Bijou Arcada (hoje o Turismo ), situado no topo sul do Jogo da Bola (Praça da República), "ponto de reunião do núcleo republicano-democrata da oposição local ao regime politico então vigente"




Esq-Direita: Café Biju Arcada, do lado direito da fotografia pode-se ver a bomba de gasolina que existia no Jogo da Bola; Café Biju Arcada interior cheio; Prespectiva desde a entrada; Prespectiva desde o bar
Uma visita real
Dizem que Dona Amélia chorou em silêncio diante do mar.
A 20 de junho de 1945, Dona Amélia de Orleães e Bragança, última rainha de Portugal, voltou ao país 35 anos após a queda da monarquia. Vivia exilada em França e aceitou o convite de Salazar para uma visita oficial.
A bordo do Sud-Express, atravessou a Península até Lisboa. Os filhos não a acompanharam. Um fora assassinado em 1908 - o príncipe Luís Filipe, com apenas 20 anos, morto a tiro juntamente com o seu pai, no regicídio, no Terreiro do Paço - , outra morrera em criança, e o mais novo faleceria aos 42 anos- inesperadamente com uma reacção alérgica forte - no exílio em Inglaterra.
Na Ericeira, Dona Amélia fez uma breve paragem no Largo do Jogo da Bola, então oficialmente Praça da República. Seguiu até ao Miradouro das Ribas, onde, segundo se conta, se debruçou sobre o muro e chorou em silêncio, recordando a fuga apressada de 1910.
👉 Lê mais sobre a fuga da monarquia: O fim da monarquia acontece na Praia dos Pescadores

Décadas de 1980 até hoje
Fechado ao Trânsito
Diz-se que, quando os carros saíram, a vila voltou a escutar os passos das pessoas.
A partir da década de 1980, o Largo do Jogo da Bola começou a ser encerrado ao trânsito. A mudança não foi pacífica — alguns comerciantes mostraram resistência. Mas pouco a pouco, as vantagens tornaram-se evidentes: o espaço tornou-se mais agradável, mais seguro, mais humano. Plantaram-se árvores, assentaram-se novas calçadas, e o ambiente comercial e de lazer floresceu.
O encerramento total ao trânsito viria a acontecer apenas em 2002. Foi o início de uma nova fase — mais tranquila, mas cheia de vida.



Jogo da Bola, década de 1980.
Negócios e memória
Cada esquina guarda uma história. Cada loja, um passado que se reinventou.
A Casa das Cavacas deu lugar a uma loja de roupa. O espaço hoje ocupado pelo posto de turismo foi em tempos o famoso Café Bijou Arcada. Onde hoje há um relógio e um marcador de temperatura, havia um polícia sinaleiro. Existiu ali uma bomba de gasolina, uma estação de autocarros, e o Café Salvador — que mudou de gerência, mas manteve o nome.
O Largo hoje
Hoje, o Largo do Jogo da Bola é um espaço pedonal, vivo e dinâmico. Há cafés, pastelarias, geladarias, farmácia, lojas de roupa, galeria de arte e um pequeno centro comercial. O largo acolhe concertos, mercados, exposições, presépios de Natal e artistas de rua. A animação, que em tempos se concentrava no verão, agora atravessa o ano inteiro.
O Jogo da Bola não é apenas uma praça. É memória viva. É património. É identidade. É a alma da Ericeira — onde o passado e o presente continuam a encontrar-se, todos os dias.



Hoje, Praça da República, no passado e no presente, para sempre, conhecida como Jogo da Bola